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Seis anos depois, a pergunta continua: Onde Estão as Mulheres no Poder?

Em 2020, ainda durante o mestrado, publiquei, ao lado de Márcia Reis Bitencourt e Débora Cardoso Guirra, um estudo sobre participação e representação feminina na política brasileira.

O trabalho, intitulado “As cotas eleitorais e a participação da mulher na política – avançamos?”, integrou o primeiro volume da coletânea Governança Corporativa e Políticas Públicas, organizada por Bruno Magalhães Costa e publicada pela Editora Tirant, em São Paulo. A obra reuniu produções acadêmicas construídas por nós, alunos do programa de mestrado, como resultado daquele percurso de formação e pesquisa.

Seis anos depois, retorno àquele estudo. Não para simplesmente reproduzi-lo. Tampouco para reescrever aquilo que construímos coletivamente naquele momento. Volto a ele porque a pergunta que nos inquietava permanece assustadoramente atual:

Avançamos? Somos maioria. Mas onde está o poder?

Em 2020, discutíamos as cotas eleitorais, a presença das mulheres nos partidos políticos e a enorme distância existente entre participação eleitoral e ocupação efetiva dos espaços de poder.Chegamos a 2026 e alguns números mudaram. Outros parecem insistir em permanecer.

Segundo os dados mais recentes do Tribunal Superior Eleitoral, o Brasil tem mais de 158 milhões de pessoas aptas a votar nas eleições deste ano. Desse universo, 83,8 milhões são mulheres. Representamos 52,84% do eleitorado brasileiro.Somos maioria entre quem escolhe. Mas continuamos minoria entre quem é escolhido. Dados divulgados pelo próprio TSE mostram que a bancada feminina corresponde a aproximadamente 18% do Congresso Nacional, enquanto a média mundial está em torno de 27%. Nas eleições gerais de 2022, apenas quatro mulheres foram eleitas para o Senado e 91 para a Câmara dos Deputados. Então talvez a pergunta já não seja apenas:

Por que existem poucas mulheres na política?

Talvez precisemos perguntar: como uma maioria eleitoral continua sendo uma minoria política?2026 nos coloca novamente diante dessa escolha. Em 4 de outubro, o Brasil realizará eleições gerais. Serão escolhidos presidente e vice-presidente da República, 27 governadores e vice-governadores, 54 senadores, 513 deputados federais, além de 1.035 deputados estaduais e 24 deputados distritais. Dois terços do Senado Federal estarão em disputa. Isso significa que não estamos diante de uma eleição qualquer. Estamos diante de uma enorme possibilidade de reorganização dos espaços de decisão política do país. E onde estarão as mulheres? Não estou falando apenas das mulheres candidatas. Estou falando de nós, eleitoras. Durante muito tempo ouvimos que mulher não gosta de política. Discordo.Mulheres discutem preço dos alimentos, escola dos filhos, segurança, transporte, saúde, trabalho, salário, violência, moradia, cuidado com idosos, acesso à universidade e futuro. Tudo isso é política. Talvez o problema nunca tenha sido a falta de interesse das mulheres pela política. Talvez tenhamos aprendido a fazer política sem reconhecer como política aquilo que fazemos todos os dias.

Quando nossas dores viram discursos

Existe ainda outra questão que merece nossa atenção. As pautas femininas passaram a ocupar cada vez mais espaço nos discursos políticos. Fala-se sobre maternidade. Fala-se sobre violência contra as mulheres. Fala-se sobre empreendedorismo feminino. Fala-se sobre igualdade salarial. Fala-se sobre mulheres negras. Fala-se sobre cuidado. Fala-se sobre famílias chefiadas por mulheres. Isso é importante. Mas precisamos aprender a distinguir uma coisa da outra: falar sobre mulheres não significa necessariamente governar com mulheres.  E defender uma pauta feminina durante uma campanha eleitoral não significa, automaticamente, assumir compromisso político com a transformação das estruturas que produzem desigualdade. É nesse ponto que precisamos desenvolver uma capacidade cada vez mais importante: aprender a interpretar aquilo que tenta nos convencer. Persuasão também é poder

Robert Cialdini, em As Armas da Persuasão, ajuda a compreender como tomamos decisões em uma sociedade marcada pelo excesso de informações.Somos submetidos diariamente a discursos, imagens, vídeos, promessas, pesquisas, frases, recortes e estímulos. Nenhuma pessoa consegue analisar profundamente todas as informações que recebe. Por isso, muitas vezes recorremos a atalhos.Uma frase. Uma imagem. Uma identificação. Uma história emocionante. Uma promessa. Um candidato que diz exatamente aquilo que gostaríamos de ouvir.Na política, compreender esses mecanismos é fundamental. Não para transformar mulheres em eleitoras desconfiadas de tudo. Mas para transformá-las em eleitoras mais conscientes daquilo que influencia suas decisões. Porque persuasão não é necessariamente manipulação. Persuadir também pode significar construir argumentos, produzir conhecimento, formar redes e convencer outras mulheres de que determinados projetos políticos podem melhorar nossas vidas. Precisamos aprender não apenas a reconhecer as estratégias de persuasão utilizadas sobre nós. Precisamos aprender a utilizar nossa capacidade de comunicação para colocar nossas próprias pautas no centro da discussão pública.

Política pública precisa chegar à vida real

A gestão pública também precisa ser compreendida para além dos gabinetes. Quando estudamos gestão pública, percebemos que administrar o Estado significa transformar escolhas políticas em políticas, programas, serviços, orçamento em resultados concretos. Uma política pública não deveria existir apenas no papel. Ela precisa chegar à vida das pessoas. É por isso que representação importa.Quem participa da construção das prioridades públicas também influencia aquilo que será considerado urgente, aquilo que receberá recursos e aquilo que poderá esperar. E essa discussão nos leva novamente ao poder. Michel Foucault nos ensinou que o poder não existe apenas de maneira concentrada em uma instituição ou em uma pessoa. Ele circula, organiza relações, estabelece comportamentos, cria normas e produz formas de controle. Por isso, ocupar espaços institucionais importa. Congresso importa. Senado importa.Assembleias Legislativas importam. Governos importam. Partidos políticos importam. O Judiciário importa. Mas ocupar esses espaços não significa apenas colocar corpos femininos dentro deles.Significa permitir que mulheres participem efetivamente das decisões que organizam a sociedade.

Cota é começo. Não pode ser destino

Quando escrevemos aquele artigo em 2020, uma das nossas inquietações era justamente compreender se as cotas eleitorais estavam efetivamente ampliando a participação feminina ou se, em determinados contextos, acabavam funcionando como parte da própria engrenagem partidária. Essa pergunta continua necessária. As ações afirmativas foram e continuam sendo instrumentos importantes para enfrentar desigualdades históricas. Mas nenhuma política de cotas pode ser considerada plenamente bem-sucedida enquanto a presença formal das mulheres não se transformar também em poder político real.Não queremos apenas preencher percentuais.Queremos participar das decisões. Não queremos apenas aparecer nas fotografias das campanhas.Queremos participar da formulação dos programas.Não queremos ser lembradas apenas quando nossas dores podem produzir votos. Queremos orçamento, políticas públicas, oportunidades, segurança, educação, autonomia econômica e representação.

Talvez a próxima mudança comece entre nós

Há seis anos, três mulheres pesquisadoras olharam para a política brasileira e fizeram uma pergunta: avançamos? Hoje retorno àquela pesquisa sabendo que houve conquistas. Mas os próprios números mostram que ainda existe uma distância enorme entre sermos maioria na sociedade e exercermos poder político proporcional à nossa presença. E talvez exista algo que nenhuma lei possa fazer sozinha. Precisamos conversar entre nós sobre política. Precisamos conhecer candidaturas.  Precisamos estudar propostas.Precisamos compreender como funciona o Estado.Precisamos acompanhar mandatos. Precisamos cobrar resultados. E precisamos parar de entregar automaticamente nossa confiança a quem simplesmente aprendeu a repetir nossas pautas. Em outubro, milhões de mulheres estarão diante de uma urna. Seremos novamente maioria. À pergunta é o que faremos com essa maioria. Porque democracia não se resume ao direito de votar. Democracia também significa disputar ideias, ocupar instituições, fiscalizar o poder e participar das decisões sobre o futuro. Seis anos depois, portanto, talvez eu acrescente uma nova pergunta àquela que fizemos em 2020.  Não basta perguntar se as mulheres avançaram na política.  Precisamos perguntar:quando compreenderemos que já temos força suficiente para influenciar os rumos dela?  E, principalmente:  continuaremos sendo tratadas apenas como uma política pública ou finalmente assumiremos nosso lugar como parte do poder que decide quais políticas públicas serão construídas?

 

Sobre a autora

Elisangela” Zazá” Sousa

Pesquisadora dedicada aos desafios contemporâneos da democracia, das políticas públicas e dos direitos humanos. Historiadora, Mestra em Direito, Governança e Políticas Públicas e Doutoranda na Universidade de Salamanca, Espanha.

 

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